quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Humano: não: Humano

Eu quero a tua alma: humana. Lamento-me e recaio, desemboco enfermo, enfermo de alma. Necessito do complemento. Viajo em divagações complexas que me deixam cada dia mais preso, preso em mim. Chuviscos de tristeza pousam em minha cabeça, não me deixam, estou sozinho, pequeno, nada e tudo. A infinitude e o ponto. Necessito de uma alma: humana. Recolho minhas prosas e me encaixo em poemas melancólicos feitos para o senso comum que me acaba de dizer "olá". Estou em mim, em angústia, preciso de uma alma, de um corpo. Mas o que é alma senão um corpo? O que é corpo senão alma? Preciso de mim, de um corpo, um corpo rígido, uma alma:humana.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

No dia em que cheguei em mim

No dia em que cheguei em mim, saí da margem do rio, afastei-me, parei de ver o reflexo do sol. Cheguei em mim e fiquei distante do código, fiquei de pé. Tomei as dores, pensei, encontrei o mundo dentro de mim. Foi assim, homo sapiens deixando de ser para Humano se tornar. No dia em que cheguei em mim, observei o valor do tempo, do meu tempo pensante interligado com o tempo atuante dos outros, uma infeliz constatação, a venda do tempo, lobos em ringues, milhares contra um, milhares derrotados. No dia em que cheguei em mim me tornei você, me tornei ela, ele, a, o, X. Estive ali, do lado, escrevi, elas ainda morrem. Passei a viver mais em nós, caminhei sobre curvas, em degraus altos, distantes, de onde jogam o pão e os palhaços para o picadeiro logo ali embaixo, plateia de milhares, fome de milhares. No dia em que cheguei em mim descobri o que é gente, pessoa, o que é choro, riso e humanidade. No dia em que cheguei em mim, morri e nasci, nasci e morri: numa dialética interminável.

domingo, 25 de novembro de 2012

Teu solinho de piano, só teu é

Já tentei por vezes, relutando comigo pelo não fazer, escrever. Nessa ciranda tanto uniforme como inconstante que produzi: eu produzi? Estava eu, aí está você. Se de antes te afastava pela minha insegurança, me prendi aos poucos em teus versos sutis de prudência pouco eucarística. Degluti teu encanto com surpresa e saciei uma fome de poesia que me perseguia há tempos, uma poesia lutadora, erótica, só sua, mas invariavelmente minha, quase minha, como você. Te achei depois dos outros, mas te prendi, te servi, te desejei para todos, por mim. Entrei em madrugadas de descobertas, me enchi de privilégio, de amor, mas de culpa, tanta culpa. A cada minúcia compartilhada reciprocamente senti existências maniqueístas de modo concomitante. Te tornei minha dama da dança, de xotes, lambadas e funks, tornaste-me teu, só teu, numa sintonia unificadora. Foi de tanto te observar, te guardar, que te ofendi, me achei assim, um qualquer, um racional estúpido. Mas te amei, te amei como nunca, te amei só, te amei em divisão, em trio. Na fantasia de te reconquistar, recebi o avesso do meu pensamento. No grito abafado da minha revolução, recebi tua voz, gritamos juntos, ecoamos sons abertos. Te queria só pra mim, como eu penso, te queria dentro de mim, como eu vejo. Mas te perdoo por seres humana, por atrasares na chegada, procrastinando um abraço. Te perdoo por não seres de todos, por não seres minha, por ser sua, só sua.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Exatamente ou a imperfeição das entrelinhas

De dentro para fora num descaminho rumo a exteriorização: a fácil publicização de mim. Meu sentimento morno, minha paixão fria: um encarte na sessão de novelas do Jornal local. Você aqui, bem do lado, aroma agradável, fico atraído por esse seu cheiro de desequilíbrio. Penso em roubá-la, penso em te tirar de ti. Desejo te tirar de ti, de fora pra dentro. Você não deixa, quase sempre não; quase sempre. Algo me agride, tenho a mais limpa noção da agressão: não temos problemas, isso é agressivo. Além, há a minha alma de imigração lunar sazonal. Trago entrelinhas e as deixo esmiuçar em suas vistas, meu reflexo de verdade. Algo me afeta, tenho a mais limpa noção desse afetar: estou aqui, poderia metaforizar em vez de estar e isso me afeta. Ando odiando provas, especulações, evidências; odeio tudo que me faz parecer literal. Prefiro a pausa de uma vírgula, a interrupção de uma frase longa, prefiro um vocativo diferente, algo não completo. Mesmo assim, não consigo parar de fugir das entrelinhas, de realçar o evidente. Eu sei dizer te amo e o saber  me deixa em desvantagem. Você nunca me parará e pedirá para que eu olhe em seus olhos e diga te amo. Sou literal, ainda que odeie isso. Eu sei dizer te amo. É como estar num balão cheio de sacos de verdadeiras emoções, mas que só consegue altitude ao dispender seus pesos. O saco do eu te amo é o bastante para provocar o subir. É agressivo e me afeta: eu sei dizer te amo.

domingo, 14 de outubro de 2012

Um texto previsível sobre a previsibilidade do tempo

Era infeliz pensar que ficaríamos tão longe. Aquele fim prolongado, aquele último ano nos equalizou de modo a compartir da positividade de jovens amigos - que não éramos mais. Já tínhamos em mente que tudo mudaria, que nada seria igual, mas forçamos, falamos e falamos muito sobre a inabalável relação que tínhamos construído e que somente nos caberia nutrir. Éramos veteranos, o mundo nas mãos, poderíamos constatar que realmente o que sentíamos era a mais pura e eterna verdade, todavia, esquecemos da mutabilidade do espaço, do intelecto, do ser, esquecemos que mesmo experientes naquele momento, éramos calouros em tantas outras estações. Os encontros contigo são de um modo injusto, do qual não reclamo: a lágrima nostálgica de hoje e talvez da semana que vem te tem, te é. O espaço vazio das entrelinhas do texto de hoje me é, semana que vem talvez não.

domingo, 16 de setembro de 2012

A culpa é da Gramática

Hoje emprestei o livro que você me deu. Emprestei com recomendações de uso. Uma recomendação, na verdade, "leia-o, fique com ele quanto tempo quiser". Verdade é que "quanto tempo quiser" não é para sempre. Quanto mais me lembro que emprestei o livro que você me deu, mais eu vejo que não o emprestei. Lembro que prometi não o ler mais. Prometi ler coisa mais próxima, li Jorge Amado. Prometi ler coisa mais verdadeira, li umas tirinhas do Laerte. Estranho é que o livro que você me deu já era próximo, já era verdadeiro, faz Jorge Amado e Laerte meio redundantes. Mas prometi não lê-lo mais. Emprestei o livro que você me deu. Ele fazia Jorge Amado e Laerte redundantes e isso é inadmissível. Por isso prometi não lê-lo mais. Emprestei o livro que você me deu e dei prazo indeterminado de entrega. "Quanto tempo quiser" não é para sempre. "Quanto tempo quiser" poderia ser nunca mais. Mas é que o "poderia" me deixa apreensivo. Agora entendo tudo. Emprestei o livro que você me deu. Emprestei. "Poderia". "Quanto tempo quiser". São erros. Estou errando com o livro que você me deu. Deveria doá-lo. Deveria. Para sempre. Mas "deveria" também é relativo. Estou errando com o livro que você me deu. A culpa não é minha. A Gramática anda muito relativa. O livro que você me deu é muito relativo. Ele faz Jorge Amado e Laerte parecerem redundantes, acredita? É isso, a culpa é do livro. A relatividade da Gramática é culpada. A falta de Fim das palavras. Não é o ponto final que encerra o dizer, pelo contrário, ele só termina de vestir a sua imperfeição. Emprestei o livro que você me deu. Deveria doá-lo. Deveria. A culpa é da Gramática.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Eu um Ela. Ela um Eu.

Parecia alta demais, seu tênis rasteiro combinado com um óculos gracioso mais me afastava que prendia. Sorrisos frouxos: pretensão. Era em demasia, explosão, desaflorava e depois contraía, um pulsar que me deixava duvidoso. Falava-me como igual e nos cruzamos na semelhança. Sede de novo, pelo novo, mais uma vez. Era impossível não prender, prender-me e prendê-la. Falávamos, simples e não tão puramente, falávamos e sorríamos, sorrisos frouxos, aqueles pretensiosos; éramos a pretensão. Novas gírias, palavras grandes, velhas verbetes, repetíamos as grandes, involuntariamente repetíamos quase que sempre a mesma grande palavra, um palavrão. Eram nossos dias, precisávamos tomar nota, respirar fundo na entrada do picadeiro e guardar aquele aroma de novidade, de conquista, revolução. Sabíamos que sentiríamos o aroma de novo, e sentimos,  tomamos nota, conquistamos, revolução. Trocamos palavras, pequenas e grandes, algumas minúsculas, quase não audíveis; outras enormes, difíceis de acompanhar. Dividimos a culpa pela inconsequência de um amor medroso, dividimos bem tarde é certo, mas compartilhamos com a cumplicidade afrouxadora de expressões. Caímos em braços, nos nossos, nos dos outros, há braços constatamos; pelos nossos decidimos. Um abraço longo, parado no tempo, no encontro do chegar, na saudade do ir. Caímos sem reserva, ficamos sem reserva, reserva não temos para concluir que eu era ela e ela um clone de mim.

domingo, 12 de agosto de 2012

One more doubt here to save my never

É meio estranho, completamente estranho.
uma nostalgia, mas não foi vivido.
"Old age": amarga, sozinha, sozinho.
Um cheiro sentido, sem sentido.

Um acorde corriqueiro:
junto, preso, suado.

Sinal de fumaça lançado!
preparar reação involuntária
entranhada no músculo escuro
É completamente estranho, meio estranho: old age.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Com muita canela e creme

Um respingo de chuva ainda escorria nas costas de Mathias, uma gotinha sem grande importância que se confundia com a sua transpiração, mas que mais densa e delongada permitiu-lhe um momento de saída de sua concentração de chegar a tempo da reunião de veteranos que se formava a alguns minutos dali. Mathias era jovem e recém aprovado no time de xadrez mais conceituado de seu estado e esse seria seu primeiro contato com os jogadores experientes; estava nervoso, tinha a barriga embrulhada e uma leve ânsia de vômito. Percorreu algumas avenidas para chegar à sede do grupo de xadrez, era tarde de um dia de quinta-feira. Em seu trajeto, dialogava consigo mesmo sobre a mudança que entrar para Liga de xadrez traria para sua vida. Fazia promessas, ensaiava falas e pensava em jogadas de sua autoria - até o instante em que aquele respingo de chuva desceu as suas costas. Com o despertar trazido pela gota involuntária, Mathias decidiu parar em um Café do outro lado da rua e se recompor, afinal, não poderia chegar com aparência de cansado - Dizem que a primeira impressão é a que fica. Sentou, pediu o de sempre: um capuccino com muita canela e creme. Tomou a goles largos sem esquecer que já estava demasiado atrasado para o início de sua nova vida. Reparou numa jovem sentada no canto e não perdendo a oportunidade, como dizia seu lema de vida, levantou-se, foi até ela e lançou uma de suas melhores cantadas, aquela somente usada para casos excepcionais - Tinham sido tantos ultimamente. Com um golpe rápido, a moça virou o rosto e retornou a ler o romance interrompido pela investida de Mathias. Recebendo a negativa de modo desmotivante, mas com um pingo de vaidade, o rapaz voltou ao seu lugar, pagou o capuccino com uma nota e mais algumas moedas para facilitar o troco, hábito que sempre fazia por achar gentil com a atendente. Saiu do café, coçou o tornozelo antes de atravessar a rua, prática involuntária, mas repetida sempre quando se encontrava a beira de uma avenida ambicionando a calçada do outro lado e partiu rumo ao clube de xadrez. Faltavam duas quadras até o lugar e Mathias caminhava com pressa, mas sem pisar no espaço entre os ladrilhos das calçadas, na verdade se deparava às vezes contando seus próprios passos. Ao chegar à porta do Clube, decidiu que a partir dali sua vida seria completamente diferente. Entrou, cumprimentou a todos e aceitou a bebida oferecida pelo garçom. "Sim, com muita canela e creme". Naquele dia não jogou nenhuma partida de xadrez, talvez pelo receio do talento dos veteranos que ali estavam.  Saiu dali mais nervoso que quando entrou, uma chuva fina começava a cair e Mathias teve que acelerar a contagem de seus passos até o momento em que esperou o sinal verde numa faixa de pedestres enquanto coçava o tornozelo. Durante a espera, observou uma liquidação de instrumentos musicais e não perdeu a oportunidade. Saiu da loja. A chuva já se fazia mais forte. Sentiu um respingo lhe descer as costas. Despertou. A partir de agora uma nova vida se iniciará para mim. Já em casa: "- com muita canela e creme".

domingo, 6 de maio de 2012

Javier

Javier mantinha uma formiga na palma da mão. Uma formiga que se mostrava inquieta quando sozinha com ele e extremamente relaxada quando entre muitas pessoas. Ele já tinha tentado muitas vezes entender o porquê de preservar aquele inseto consigo, mas nunca alcançou a introspecção necessária para decifrar essa questão. Não lembrava sequer a que altura de sua vida passou a dar morada a uma formiga. Javier sabia, e com muita certeza, porém, que precisava se livrar daquele estranho incômodo. Quando encontrava com outras pessoas, fazia questão de fechar a mão bem forte para impedir que a inusitada presença  se fizesse notar. Mas, quando sozinho, não dispunha do incentivo necessário e deixava a palma da mão bem aberta, a ponto de evidenciar o crescente buraco que se formava em sua mão; e nessas horas sofria, sofria como se nada mais fosse suficiente, como um aparelho eletrônico em desuso por conta da inovação tecnológica, nesses momentos era um inútil, o inútil. Javier decidiu, pois, esquecer a formiga, era bem mais fácil, para tanto recorreu a técnicas pouco aceitáveis diante do bom senso: começou a engolir bolas de isopor. Bolas que davam uma sensação incrível de tranquilidade e que faziam a formiga desaparecer, ainda que momentaneamente, já que ela voltava e cavava com ainda mais força o buraco na palma da mão de Javier, logo depois que sua fome por bolas de isopor retornava. Ele, então, começou a ter que comprar bolas de isopor com grande frequência e em uma dessas compras encontrou outras pessoas que mantinham inquilinos insetos em seus próprios corpos; conheceu uma mulher com um grilo na cabeça, um velho com borboletas na barriga e até uma criança com uma cigarra no olvido. Passou a engolir ainda mais bolas de isopor, entretanto o buraco em sua mão só aumentava. Em alguns dias Javier já conseguia ver o mundo através do orifício criado pela formiga.  Mas agora  parecia menos dolorido, ele já tinha com quem dividir bolas de isopor.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Ali: o malabarista, o catador de latas, o taxista, o invisível.

Parecia irrelevante e passageiro, deveria ser a tensão por mais uma prova na faculdade, mas aquela angústia persistiu, e se ampliou dentro daquele táxi. Ali, com os vidros fechados, hermeticamente isolado do mundo externo, ele se deparou com a realidade costurada em sua pupila, mas olvidada diariamente com doses de colírio de satisfação. O menor que fazia malabares na frente do carro nunca entraria na sala do curso de línguas para onde o táxi seguia, o catador de latas da esquina nunca deixaria de recolher os restos de consumo, aquele taxista trabalharia por horas dia a dentro para conseguir o mínimo de  dignidade. E pensar que todos partilham da qualidade humana. Já em seu destino, não conseguiu conter a lágrima gelada. Ali não conseguia mais pintar a tela de um mundo feito de iniciativas e dedicação. Ali ele já não se reconhecia, já não se via, não se entendia. Ali estava para preencher requisitos e se distanciar ainda mais daqueles invisíveis, mesmo que de contra-vontade. Deu-se conta que era incapaz, uma escultura pacientemente moldada. Expôs a semelhantes visíveis sua inquietude, recebeu doses do mesmo colírio de satisfação. Desejou transformação, mas tinha seu interior fragmentado por uma lixa de concretude e verdade. Deitou de olhos fechados, mas escancarados como nunca antes. A angústia parecia libertadora e opressora, uma dupla via de esperança e descrença. Naquele dia a prova da faculdade pareceu só mais um espinho da coroa que cega de sangue as vistas do dono do sofrimento, o malabarista, o catador de latas, o taxista, o invisível.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Metade do abstrato

Com manhãs intermitentes e noites de profunda inutilidade, ele passava a maior parte de seus dias. Lia algum romance e encontrava nele suas fantasias e idealizações, mais concretas que aquele conjunto de regras que supostamente harmonizam a sociedade e que por ônus tinha obrigação de reler. Havia dias como um capítulo do "Livro dos abraços", eram tão singelos e peculiares que voltavam como telegramas imaginários em momentos de solidão. Outros dias, ao contrário, eram carregados de peso: sacos de inconformismo misturados a caixas de indignação. Mesmo assim ele caminhava, caminhava entre levitações e rastejos. Tinha o inconsciente racional e a lucidez amarrada pela irracionalidade.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

De cabeça

Saía do lago, estava encharcado, roupas pesando sobre o corpo e resquícios de uma vermelhidão nos olhos. Passou-lhe pela mente uma daquelas ideias que teimam em dar o ar da graça ainda que saibamos que seus efeitos não duram um tocar de pálpebras: "nunca mais entrarei num lago". Ao caminhar de volta pra casa tentava esquecer do episódio que horas atrás o acometia. Estava ele passando sobre aquela ponte tantas vezes percorrida e de onde se tinha a melhor imagem do lago, quando fez o que pretendia há algum tempo, lançou-se à água. Entretanto, não imaginava que aquele lago fosse tão raso a ponto de transformar seu pulo de cabeça num acidente e converter o desejo de um mergulho em uma má lembrança.
Agora, todavia, ele queria esquecer o que tinha acontecido e nunca mais pular de cabeça num lago aparentemente profundo. No caminho de casa, como se já não bastasse o ocorrido, acometeu-lhe de repente um espirro seguido de um calafrio. Aquele resfriado ficaria consigo durante os longos dias de feriado que estavam por vir, oscilando entre momentos de bem-estar e declínios de graves crises.
Já se passavam alguns dias desde o fato do lago e o resfriado estava quase que ausente. Foi quando decidiu dar uma volta, no caminho - diferente do habitual - deparou-se com um outro lago, impossível não associá-lo ao anterior. Contanto, na ponte que o cortava havia mais alguém; pessoa essa que depois de algumas palavras expôs sua vontade de mergulhar naquelas águas e inesperadamente despertou-lhe o mesmo desejo. Mas já não havia prometido não mais fazer isso? Bem, a promessa se desfazia ali. . Decidiu não mergulhar de cabeça, mas ir adentrando passo a passo aquelas águas. Ainda que parecesse menos emocionante, ele preferia isso a frustrar-se novamente. Além do mais, agora ele tinha alguém para compartilhar o mesmo mergulho e isso já o fazia esquecer do peso da roupa molhada. Talvez depois dessa imersão tranquila eles se aventurem num pulo de cabeça, mas nesse caso, já saberão a profundidade do lago.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Bolero

Quando ouviu aquela música não conteve a associação. Já a tinha cantado como demonstração de afeto algumas vezes. Mas ali, naquela hora, tudo se pôs diferente e o acelerar do coração veio acompanhado de uma angústia repentina. A música, por incrível que pareça, tornou-se mais adequada para este fim que para o início não ocorrido. Estavam juntos novamente, ainda que separados por milhas de indiferença. Ele recebendo de volta seus anseios depositados e ela desengonçada como antes. Seria possível uma dança? Minutos finais de uma música qualquer. Ele acreditou em si. Ela acreditou que ele suportaria(?).Ele observou rapidamente o jato que o continha sendo cuspido em sua cara. Ela permanecia de olhos fechados. Ele recolheu seu eu, mas ainda assim a encontra nos versos daquela canção que é apenas mais uma de amor. Entretanto, quando isso ocorre, ele re-sintoniza o canal de rádio e escuta um bolero qualquer, isso parece tão menos triste.

quinta-feira, 29 de março de 2012

A falácia da convicção

Quando percebeu seus olhos já estavam cheios d'água. Não entendia a visita da melancolia num dia de sol de alma de uma semana que até a chuva não foi afetada pela censura nossa de cada dia. Levantou durante todos os dias com uma respiração funda e de limpeza completa. Realizou suas atividades com um quê de satisfação e dormiu despreocupado, com os dentes por escovar e as leituras por fazer. Contanto, naquele último dia da semana, naquele instante que uma lágrima teimava em percorrer seu rosto, percebeu que levantar com uma respiração funda, fazer o que devia e dormir despreocupado foi justamente o que tinha feito na semana passada, e naquele outra, e ainda na semana que ganhou uma festa com motivos da Disney. Notou que algumas das pessoas que caminhavam com ele estavam desaparecendo, que os anos de estudo estavam passando, que bastariam algumas semanas de respiração funda e sono despreocupado para alcançar o estágio onde o bom-senso impede mudanças bruscas. Decidiu então mudar sua conduta. Não poderia viver com essa determinação. Resolveu apagar a imagem do bom-senso: - "Eu posso fazer o que quiser, quando quiser. Só não estou disposto agora." Triste seria perceber que até o clichê do bom-senso é necessário, mas para que tristeza? Algumas semanas depois uma lágrima percorreu seu rosto.

domingo, 18 de março de 2012

Vô Dino

Recém ingressos à vida adetram correndo a casa da felicidade, o lugar onde encontram a liberdade da infância e a companhia dos companheiros de traquinagem, aqueles que os laços de sangue tornaram os primeiros amigos. Sentado no sofá da sala vê-se o senhor de óculos a saudar seus descendentes mais queridos. Aquelas crianças não tinham nada mais que suas vidas, essas sem problemas, cheias de vivacidade e nenhum dispêndio de energia para além. A figura que representava exatamente o esteriótipo do bom avô, convidou a todos para um passeio àquela gruta algumas vezes já visitada mas de encanto preservado. Seguiu-se a fila de primos ao recanto onde se sentiam imponentes e onde nada poderia afetá-los, afinal ele estava ali, ele tinha o poder de protegê-los, ele sabia como ninguém inserir aquelas crianças num universo novo e eram muitas as descobertas, encontraram frutas com nomes engraçados, ajudaram no tropeço do primo da frente e beberam água do riacho ao fundo da gruta. Era emoção demais.
Por anos fizeram daquele passeio o maior pedido ao avô e ele, como que batendo continência, fez daquilo um presente aos seus netos.
Mas o tempo é impiedoso e trouxe a maturidade a maioria daqueles amigos-primos-irmãos, o tempo conseguiu afastá-los e praticou o pior de seus crimes, distanciou os exploradores de seu guia.
Ainda assim, em suas memórias, aquelas visitas permanecem vivas e retornam a cada palavra trocada entre si. Apesar de tudo, todos tinham em seu íntimo, o desejo de voltar àquela gruta, de beber a água daquele riacho, de receber os conselhos daquele lider. Todos desejavam um abraço rápido, mas incrivelmente sincero. Todos queriam adentrar correndo aquela casa e receber uma mão para pedir a benção.
Todos continuam a desejar isso, almejar essas simples ações. Contanto, hoje todos o encontrarão sem a disponibilidade de outrora, sem a capacidade de ensiná-los, sem a mão a se estender. Hoje o encontraremos para um último pedido de benção...
Hoje o desconsolo me impede de continuar.
Adeus vô Dino.

terça-feira, 13 de março de 2012

Brincadeira?

Tava brincando de esquecer, mas ela apareceu com sua mania de estragar as brincadeiras alheias. Se bem que ela também brinca de não entender e nessa brincadeira eu é que sou o estraga prazeres. Já notei que retomaremos ao jogo de estátua ou quem sabe acabaremos entrando num de cabra-cega.


sábado, 10 de março de 2012

Opção

Com o peito amarrado, coração asfixiado por uma corrente de solidão opcional (ou não), ele passou o dia entre pessoas que reunidas personificavam seu eu. Ouviu prosas de outrora, contou sentimentos atuais, cuspiu temores e engoliu fórmulas mágicas. Sempre rodeado e sempre sozinho. Intercalava a euforia da embriaguez do múltiplo com a aflição do uno. Com o peito amarrado caminhava e não percebia a força do aperto das correntes, que só se faziam notar no canto daquela mesa de estudos solitários manchada de gotas salgadas tantas vezes caídas ali e vindouras das mesmas pálpebras. Procurava na quantidade a força que sabia encontrar na singularidade que temia recorrer. A unidade parecia compor a aflição que mantinha. A multiplicidade valia-se como analgésico. Bastaria, todavia, uma opção para desacorrentar aquele coração sem ar: escolher o UNO, o verdadeiro, o literário. Mas fazendo isso onde arranjaria inspiração? É tão consolador sentir o gozo trazido pela angústia.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Vínculo

Naquela manhã de domingo o mundo parecia vestir luto. Não havia agito, não havia sol, mas havia Pedro e seu apartamento; aquele lugar que tinha vida própria, onde a poltrona gritava suas marcas e registros de alguns cigarros, onde as fotografias dispostas em quadros irregulares em paredes imundas contavam fábulas de uma vida intermitente. Pedro acordou e sentiu muito por acordar, em seus planos o despertar somente aconteceria três horas mais tarde, entretanto, como se sabe, nem sempre as expectativas são satisfeitas. Pôs-se de pé, foi até a sua estante de discos de vinil, puxou aquele tantas vezes já reproduzido e acrescentou mais uma reprodução para seu histórico. Jogou-se então sobre a poltrona e controlou uma lágrima involuntária. Há dias Pedro vem mantendo uma angústia meio sem explicação, decidiu não questioná-la, tinha receio de encontrar respostas incontestáveis. Não imaginava, porém, que se sentiria desse modo, que sua poltrona reforçasse a angústia, que cada quadro na parede zombasse de suas relações superficiais. Pedro, naquele momento, foi obrigado a questionar os motivos de tão nefasto sentimento, teria que entender o seu real significado. Só conseguiu, porém, fazer uma coisa. Levantou-se. Vasculhou a gaveta de seu criado-mudo.  Recolheu uma tabela de comprimidos. Lançou duas pastilhas na boca, empurrou-as com um tanto d'água. O mundo continua suas atividades e Pedro sai de sua problemática individual. Chegou a conclusão de que sua angústia não merecia importância, há relações complexas demais para se preocupar com minunciosidades pessoais.
No dia seguinte a manhã pareceu vestir luto, mas até quando?

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O Jogo
















Por vezes hesitei a escrever,
Não sei se por receio,
Indolência ou apatia,
Neste instante me deparo com o fato,
de que hoje escrevo, pois retenho:
Apatia, indolência e receio.

Nasci alforriado.
Deixe-me esclarecer as demasias,
As causas e as presunções.
Se é que isso é justo
para mim que mantenho vazias:
Presunçõe, causas e demasias.

Entrei num jogo injusto.
Como jogar com uma pessoa misteriosa e intermitente?
Foi depois de muito pensar
que descobri que procurava uma "corajosa"
Intermitente, decidida e misteriosa.

Uma batalha travei.
Jogos às vezes iludem,
machucam, corroem...
Por isso não concordo com o poeta que disse:
-"Que seja(m) eterno(s) enquanto dure(m)"
Já que eles corroem, machucam e iludem.

Não quero que me tomem
como mais um egoísta
ou um ser introspectivo e vazio.
Mas quero que me vejam como um jogador
que luta pelo jogo que tem em vista,
apenas vazio, introspectivo e egoísta.





quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Curta-metragem

Por um instante teu cabelo me deu um golpe na cara. Por um momento desejei que aquela noite não acabasse nunca, que teu cheirinho de framboesa continuasse a pintar o céu e inundasse aquele ar não mais impuro. É que a pedra dentro da minha meia nem dói tanto assim, você está perto. Isso importa, isso cala a buzina do gordo estressado no carro de trás; aproxima o cheirinho de sal desse mar de turistas; e até me faz esquecer da luta de classes.
Sabe o que eu queria? Queria uma tela. Não, não, queria uma câmera. Faríamos um filme, um filme daqueles que eu te conto, um filme com trilha francesa. Você faz o perfil da mocinha daquele filme que tenta fugir dos perfis. A gente tem visto tantos assim, né?
Vamos, corre, ainda temos muitos quadros pra filmar. Tenho mil cenas em mente, mas não vai dar tempo. Rápido, vamos correr na praia e deixar o vento fechar os nossos olhos. Vai, vai, temos que correr, ainda temos muito quadros pra filmar antes que eu desperte.