sexta-feira, 20 de abril de 2012
Ali: o malabarista, o catador de latas, o taxista, o invisível.
Parecia irrelevante e passageiro, deveria ser a tensão por mais uma prova na faculdade, mas aquela angústia persistiu, e se ampliou dentro daquele táxi. Ali, com os vidros fechados, hermeticamente isolado do mundo externo, ele se deparou com a realidade costurada em sua pupila, mas olvidada diariamente com doses de colírio de satisfação. O menor que fazia malabares na frente do carro nunca entraria na sala do curso de línguas para onde o táxi seguia, o catador de latas da esquina nunca deixaria de recolher os restos de consumo, aquele taxista trabalharia por horas dia a dentro para conseguir o mínimo de dignidade. E pensar que todos partilham da qualidade humana. Já em seu destino, não conseguiu conter a lágrima gelada. Ali não conseguia mais pintar a tela de um mundo feito de iniciativas e dedicação. Ali ele já não se reconhecia, já não se via, não se entendia. Ali estava para preencher requisitos e se distanciar ainda mais daqueles invisíveis, mesmo que de contra-vontade. Deu-se conta que era incapaz, uma escultura pacientemente moldada. Expôs a semelhantes visíveis sua inquietude, recebeu doses do mesmo colírio de satisfação. Desejou transformação, mas tinha seu interior fragmentado por uma lixa de concretude e verdade. Deitou de olhos fechados, mas escancarados como nunca antes. A angústia parecia libertadora e opressora, uma dupla via de esperança e descrença. Naquele dia a prova da faculdade pareceu só mais um espinho da coroa que cega de sangue as vistas do dono do sofrimento, o malabarista, o catador de latas, o taxista, o invisível.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Metade do abstrato
Com manhãs intermitentes e noites de profunda inutilidade, ele passava a maior parte de seus dias. Lia algum romance e encontrava nele suas fantasias e idealizações, mais concretas que aquele conjunto de regras que supostamente harmonizam a sociedade e que por ônus tinha obrigação de reler. Havia dias como um capítulo do "Livro dos abraços", eram tão singelos e peculiares que voltavam como telegramas imaginários em momentos de solidão. Outros dias, ao contrário, eram carregados de peso: sacos de inconformismo misturados a caixas de indignação. Mesmo assim ele caminhava, caminhava entre levitações e rastejos. Tinha o inconsciente racional e a lucidez amarrada pela irracionalidade.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
De cabeça
Saía do lago, estava encharcado, roupas pesando sobre o corpo e resquícios de uma vermelhidão nos olhos. Passou-lhe pela mente uma daquelas ideias que teimam em dar o ar da graça ainda que saibamos que seus efeitos não duram um tocar de pálpebras: "nunca mais entrarei num lago". Ao caminhar de volta pra casa tentava esquecer do episódio que horas atrás o acometia. Estava ele passando sobre aquela ponte tantas vezes percorrida e de onde se tinha a melhor imagem do lago, quando fez o que pretendia há algum tempo, lançou-se à água. Entretanto, não imaginava que aquele lago fosse tão raso a ponto de transformar seu pulo de cabeça num acidente e converter o desejo de um mergulho em uma má lembrança.Agora, todavia, ele queria esquecer o que tinha acontecido e nunca mais pular de cabeça num lago aparentemente profundo. No caminho de casa, como se já não bastasse o ocorrido, acometeu-lhe de repente um espirro seguido de um calafrio. Aquele resfriado ficaria consigo durante os longos dias de feriado que estavam por vir, oscilando entre momentos de bem-estar e declínios de graves crises.
Já se passavam alguns dias desde o fato do lago e o resfriado estava quase que ausente. Foi quando decidiu dar uma volta, no caminho - diferente do habitual - deparou-se com um outro lago, impossível não associá-lo ao anterior. Contanto, na ponte que o cortava havia mais alguém; pessoa essa que depois de algumas palavras expôs sua vontade de mergulhar naquelas águas e inesperadamente despertou-lhe o mesmo desejo. Mas já não havia prometido não mais fazer isso? Bem, a promessa se desfazia ali. . Decidiu não mergulhar de cabeça, mas ir adentrando passo a passo aquelas águas. Ainda que parecesse menos emocionante, ele preferia isso a frustrar-se novamente. Além do mais, agora ele tinha alguém para compartilhar o mesmo mergulho e isso já o fazia esquecer do peso da roupa molhada. Talvez depois dessa imersão tranquila eles se aventurem num pulo de cabeça, mas nesse caso, já saberão a profundidade do lago.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Bolero
Quando ouviu aquela música não conteve a associação. Já a tinha cantado como demonstração de afeto algumas vezes. Mas ali, naquela hora, tudo se pôs diferente e o acelerar do coração veio acompanhado de uma angústia repentina. A música, por incrível que pareça, tornou-se mais adequada para este fim que para o início não ocorrido. Estavam juntos novamente, ainda que separados por milhas de indiferença. Ele recebendo de volta seus anseios depositados e ela desengonçada como antes. Seria possível uma dança? Minutos finais de uma música qualquer. Ele acreditou em si. Ela acreditou que ele suportaria(?).Ele observou rapidamente o jato que o continha sendo cuspido em sua cara. Ela permanecia de olhos fechados. Ele recolheu seu eu, mas ainda assim a encontra nos versos daquela canção que é apenas mais uma de amor. Entretanto, quando isso ocorre, ele re-sintoniza o canal de rádio e escuta um bolero qualquer, isso parece tão menos triste.
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