quarta-feira, 5 de junho de 2013

Todo lugar

Essa semana não pensei em você. Estava preso nos absurdos. Não tive tempo pra lembrar de sua figura atrapalhada, de sua dança característica ou de seu cheiro. Sempre te peço uma dança por isso, numa dança reúnem-se cheiro, jeitinho especial de se mexer e um mover-se desengonçado. Essa semana não pensei em você porque nas horas vagas atualizei minha playlist, coloquei aquele acústico que você disse estar curtindo ultimamente, é realmente irado! Por um minuto cheguei a quase pensar em você, deu-se quando dedilhando uns livros na biblioteca encontrei um García Marquez que certamente te confortaria o coração. Não nos falamos essa semana. O clima anda tão quente, as pessoas ficam indispostas. Teremos prova. Tenho que terminar algumas leituras. Essa semana não pensei em você. Hoje já/ainda é quarta-feira.

domingo, 19 de maio de 2013

PEC da Dor










Normatize-se a dor
que se institua pena
para o não sofredor
um pouco de alegria é a sanção.

Que infalivelmente incida a depressão
que seja eficaz para todos
o feliz indenize o artista
o feliz que se foda.

No processo legislativo para normatizar a dor
aprove-se em duas sessões
Projeto vetado: redundância legal.
A dor já é constitucionalmente implícita.


sábado, 16 de março de 2013

Um tantinho de mim em você

Mais difícil do que poderia concluir, escrever para ti me fez parar, parar e tentar um grande respiro. Essa rua em que caminhamos e que já ladrilhada estava é de desuniformidade tamanha, por vezes larga a ponto de tornar um olhar inaudível e por vezes estreita unificando o aroma. O certo, todavia, é que caminhamos, caminhamos muito. Não poderia crer que aquela menina que descobria o mundo viria a se eternizar a esse ponto em mim. As coincidências, os planos, a amiga do país das maravilhas, o em comum nos selecionou. Na palheta de momentos construímos um degradê multicolorido. De ofícios compartidos, de fins de semana movimentados (ao nosso modo), de cinema francês, de planos, de planos mirabulantes, de mim, de você, atamos forte o laço ou seria o nó que nos prende? Tua preocupação universal, minhas descobertas, tuas descobertas, nossos banhos de chuva, risadas fáceis, pensamentos afins alicerçaram o hoje. Poderia remover a sua doçura se eu não achasse encantadora, mas ainda assim restaria sua devoção amiga; poderia, então, retirar essa amizade, mas de resto haveria sua inteligência impulsionadora; ainda que sumisse sua  inteligência, sobraria uma beleza mansa que aprisiona; mesmo sem essa beleza, ficaria sua voz que preenche lembranças e equilibra o caos interno dessa redondeza fria. Na certeza do nós, por essa amizade gratuita, te amar baixinho: hoje a primavera é quem faz aniversário.

terça-feira, 12 de março de 2013

Na rua - O fim de semana.

Sim, eu fujo. Não consigo manter o passo regrado, olhar e não ver. Eu fujo sim, porque sempre e tão logo me firo pelas vistas, pelo cheiro. Não, não é medo, não apenas. Não posso presenciar, imaginar já é doloroso em demasia. Estou perto, mas não posso estar, tento não estar, por mim; meio hipócrita talvez, naufrago em meus pensamentos que quero crer que são poéticos. A ferida aberta por arma mortífera que em mim só de raspão passou, mas que mata, esfacela a maioria, eu finjo já estar sarada: não está. São peles, meninas púberes, famílias do lixo, diferença de natais. Distancio-me dessa concretude fria, trêmula, grande e invisível. Minha escola não foi da natureza bruta, do corte necessário, do papelão e do sangue. Minha dor, por outro lado, é gelada, um anzol mordaz, que me obriga a fugir da realidade presente atrás dessa moldura que insistem em me dizer que é natural. Minha poesia é fugidia demais para tocar, relatar, mirar. Ela só exala minha enfermidade, minha quase loucura, minha, minha. E se uma lágrima decide cair, é melhor pensar na desventura amorosa, na prova por fazer, no próximo fim de semana. E aí, qual a boa do sábado?

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Se de amor eu sofrer

Esse ventinho brando
meu peito esfumaçado quente
teu olho preso no meu
se de amor eu sofrer.

Pisando numa poça d'água
acordo e sinto a sua temperatura
se de amor eu sofrer
te amarrarei num cata-vento no quintal,

Graminha verde, um gafanhoto.
Te amo olhando deitado
lampejos de sol na cara
peito e bochechas quentes.

se de amor eu sofrer
deixe-me num campo, num bosque
aqui, sob os ventos catados por você
e guardados em mim.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Palavras redundantes, qual o amor.

Precisava ouvir uma canção que me lembrasse você, que me trouxesse seus olhinhos aos meus numa lembrança risonha. Não que seja um árduo trabalho de ti recordar, pelo contrário, mas eu prefiro o gozo de reviver nossos momentos em clipe, prefiro sorrir sozinho ouvindo o solo do violão enquanto relembro dos pulinhos dançantes que dividimos em instantes não fotografados, mas por certo fossilizados em minha mente.
Precisava ler um poema que me lembrasse você, que me fizesse olhar para o céu e pra constelação impressa na sua pele como um sinal de especialidade, como um chamariz para que todos a ti recorram e encontrem doces versos dóceis que pulam aos dedos se não presos com força. "Fechem a mão, camaradas! Não deixem a sutileza escapar!", grito por dentro. Em dias de razão, tê-la é conhecer uma licença poética frente a frente, re-sentir a infância, segurar um sapo na mão com um sorriso de primeiro lugar no pódio.
Precisava ver um filme que me lembrasse você, que me surpreendesse numa noite ou manhã qualquer com uma frase que por si me fizesse calar e chorar, que me deixasse em mim durante alguns minutos. A necessidade de manter abertos os olhos, de prender a visão em você em busca da sensibilidade que a próxima cena vai trazer, não posso fechar as vistas,  pode ser agora.
Na arte, no sol, no livro: você. De versos rimados, frases espontâneas e carinho na pele. Um quadro surreal fixado nas paredes da habitualidade: genial, profundo e risonho; meu por ter a mim cativado; de todos por ser impossível não cativar.
Na beleza do falar, na poesia do existir, te ler de-va-ga-ri-nho para decorar os traços e ligar os teus sinais. A vida é mais feliz contigo.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Na hora

Ora, que sopro. Subtraem-se os pensares, os titubeios, os lutos e as línguas auto-mordidas. Que de resto fica? Os passeios, os amores, o tropicalismo, o carnaval. Fica o outro, o metrô, o leite fervente. No amor, na mão, na pele, um orgasmo, uma embriaguez, o amigo. Se no fluxo natural, uma colcha, uma carta de amor e um copo d'água na cabeceira. Se de inesperado, um livro rabiscado, um cd recém comprado e um alguém por acertar. Nasce a desumanidade num paradoxo que caracteriza o humano. O não mais, o silêncio, o vazio, alguém está casando agora, enquanto chegam mais e mais flores a outro recinto. A triste constatação da finitude, o desamor involuntário.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Cultivo de cativo

E me tinha determinado que quem realmente interessa, quem de mim levou um tanto, estaria descrita em algum verso poético ou torto. Não entendo, pois, essa motivação, de te escrever se nem em mim vivias há pouco e de passagem efêmera já se foi. Não te notei no sempre, mas no ali, naqueles dias, tornei-me pedaço de cativo, cultivo talvez. De certo, todavia, emaranhaste-me nessa tua teia tecida com requintes de perfeição, perfeição cruel. Estava já inerte, rapidamente enraizado nesse verde tênue e aterrorizante reflexo levemente fechado pela abertura de um sorriso intimidante. Conversas fáceis, sorrisos purificadores de maus dias, palavras ambiguamente poéticas, poeticamente eróticas. De certezas em segundos de confusão a silêncios de pouco tempo de convívio, te encontrei e perdi de modo igual. Eternamente responsáveis um pelo outro, nossa eternidade rápida, sua rápida infinitude que pelo jeito conseguiu me tirar essas palavras.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Paradoxo apaixonante

Pensava que sabia proteger, ser fiel, que sabia amar: não sabia. Ela tão experiente, tão adulta, independente e forte sorria manhoso e vergonhosamente para ele: crente da vida. Caminhos em muito diferentes, palavras tão iguais, um encontro e se viram mais próximos, até geograficamente, surgia amor. Linda sempre foi e apesar de aparente madurez, derramou-se em inocência, inocência pelo não vivido, pelo descontato, pelo receio de errar, medo da repetição. Ele que de pronto se apaixonou, assimilou a inocência como qualidade extrema e encontrou o que mais buscava: humanidade. Em grandes noites deparou-se com a mistura quase paradoxal da ingenuidade e da carne, sua beleza só aumentou e de logo formaram vidas difíceis de descruzar, complicadas de descrever sem referenciar um ao outro. Compartilharam pedaços de nostalgia, sentimento e filosofia assim, simploriamente, em conversas brandas, entre risos e respingos de alma. Recaíram como crianças, laços fortes demais, amor difícil de definir. Encontraram confiança entre luas e mares, viajaram em ondas de afeto no lugar deles, o melhor lugar do mundo. Ele que não sabia amar, encontrou o amor e a verdadeira fidelidade nela, um paradoxo apaixonante. Brincadeiras inusitadas, palavras fragmentadas e abraços apertados: um amor encontrado na vida: difícil de desfazer.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Balelas angustiantes acerca da liberdade

Leio discursos de proclamação da liberdade: preso. Caminho entre as calçadas, uma moldura pros carros, pro meu sentimento aberto. Transgrido normas pelo meu bem, normas promotoras da liberdade, meu bem, minha liberdade solitária. Caminho na estradinha de paralelepípedos preservada no meio da metrópole, sinto-me mais eu por um momento, mais livre. Meu coração se descaminha pela liberdade emoldurada. Digo palavras de ordem que me tranquilizam e me entristecem. Recaio em madrugadas angustiado, mas livre. Prendo minha atenção, aprisiono minha curiosidade para memorizar algumas hipóteses de condenação. Continuo livre, sozinho. Se grito em desespero me respondem em sobrancelhas curvadas. Se eles gritam em desespero, têm suas carnes com marcas. Caminho entre as calçadas e estou livre e sozinho. Saio de ambientes noturnos: livre. Planejo estudos conscientemente humanos e me paraliso lendo técnicas de instituir a liberdade. Estou livre para estar livre, mas minha insônia, meu apego, minha aula de obrigações me impedem de ser livre, coisa que não tenho permissão. Permissão para ser.