quinta-feira, 29 de março de 2012
A falácia da convicção
Quando percebeu seus olhos já estavam cheios d'água. Não entendia a visita da melancolia num dia de sol de alma de uma semana que até a chuva não foi afetada pela censura nossa de cada dia. Levantou durante todos os dias com uma respiração funda e de limpeza completa. Realizou suas atividades com um quê de satisfação e dormiu despreocupado, com os dentes por escovar e as leituras por fazer. Contanto, naquele último dia da semana, naquele instante que uma lágrima teimava em percorrer seu rosto, percebeu que levantar com uma respiração funda, fazer o que devia e dormir despreocupado foi justamente o que tinha feito na semana passada, e naquele outra, e ainda na semana que ganhou uma festa com motivos da Disney. Notou que algumas das pessoas que caminhavam com ele estavam desaparecendo, que os anos de estudo estavam passando, que bastariam algumas semanas de respiração funda e sono despreocupado para alcançar o estágio onde o bom-senso impede mudanças bruscas. Decidiu então mudar sua conduta. Não poderia viver com essa determinação. Resolveu apagar a imagem do bom-senso: - "Eu posso fazer o que quiser, quando quiser. Só não estou disposto agora." Triste seria perceber que até o clichê do bom-senso é necessário, mas para que tristeza? Algumas semanas depois uma lágrima percorreu seu rosto.
domingo, 18 de março de 2012
Vô Dino
Recém ingressos à vida adetram correndo a casa da felicidade, o lugar onde encontram a liberdade da infância e a companhia dos companheiros de traquinagem, aqueles que os laços de sangue tornaram os primeiros amigos. Sentado no sofá da sala vê-se o senhor de óculos a saudar seus descendentes mais queridos. Aquelas crianças não tinham nada mais que suas vidas, essas sem problemas, cheias de vivacidade e nenhum dispêndio de energia para além. A figura que representava exatamente o esteriótipo do bom avô, convidou a todos para um passeio àquela gruta algumas vezes já visitada mas de encanto preservado. Seguiu-se a fila de primos ao recanto onde se sentiam imponentes e onde nada poderia afetá-los, afinal ele estava ali, ele tinha o poder de protegê-los, ele sabia como ninguém inserir aquelas crianças num universo novo e eram muitas as descobertas, encontraram frutas com nomes engraçados, ajudaram no tropeço do primo da frente e beberam água do riacho ao fundo da gruta. Era emoção demais.
Por anos fizeram daquele passeio o maior pedido ao avô e ele, como que batendo continência, fez daquilo um presente aos seus netos.
Mas o tempo é impiedoso e trouxe a maturidade a maioria daqueles amigos-primos-irmãos, o tempo conseguiu afastá-los e praticou o pior de seus crimes, distanciou os exploradores de seu guia.
Ainda assim, em suas memórias, aquelas visitas permanecem vivas e retornam a cada palavra trocada entre si. Apesar de tudo, todos tinham em seu íntimo, o desejo de voltar àquela gruta, de beber a água daquele riacho, de receber os conselhos daquele lider. Todos desejavam um abraço rápido, mas incrivelmente sincero. Todos queriam adentrar correndo aquela casa e receber uma mão para pedir a benção.
Todos continuam a desejar isso, almejar essas simples ações. Contanto, hoje todos o encontrarão sem a disponibilidade de outrora, sem a capacidade de ensiná-los, sem a mão a se estender. Hoje o encontraremos para um último pedido de benção...
Hoje o desconsolo me impede de continuar.
Adeus vô Dino.
Por anos fizeram daquele passeio o maior pedido ao avô e ele, como que batendo continência, fez daquilo um presente aos seus netos.
Mas o tempo é impiedoso e trouxe a maturidade a maioria daqueles amigos-primos-irmãos, o tempo conseguiu afastá-los e praticou o pior de seus crimes, distanciou os exploradores de seu guia.
Ainda assim, em suas memórias, aquelas visitas permanecem vivas e retornam a cada palavra trocada entre si. Apesar de tudo, todos tinham em seu íntimo, o desejo de voltar àquela gruta, de beber a água daquele riacho, de receber os conselhos daquele lider. Todos desejavam um abraço rápido, mas incrivelmente sincero. Todos queriam adentrar correndo aquela casa e receber uma mão para pedir a benção.
Todos continuam a desejar isso, almejar essas simples ações. Contanto, hoje todos o encontrarão sem a disponibilidade de outrora, sem a capacidade de ensiná-los, sem a mão a se estender. Hoje o encontraremos para um último pedido de benção...
Hoje o desconsolo me impede de continuar.
Adeus vô Dino.
terça-feira, 13 de março de 2012
Brincadeira?
sábado, 10 de março de 2012
Opção
Com o peito amarrado, coração asfixiado por uma corrente de solidão opcional (ou não), ele passou o dia entre pessoas que reunidas personificavam seu eu. Ouviu prosas de outrora, contou sentimentos atuais, cuspiu temores e engoliu fórmulas mágicas. Sempre rodeado e sempre sozinho. Intercalava a euforia da embriaguez do múltiplo com a aflição do uno. Com o peito amarrado caminhava e não percebia a força do aperto das correntes, que só se faziam notar no canto daquela mesa de estudos solitários manchada de gotas salgadas tantas vezes caídas ali e vindouras das mesmas pálpebras. Procurava na quantidade a força que sabia encontrar na singularidade que temia recorrer. A unidade parecia compor a aflição que mantinha. A multiplicidade valia-se como analgésico. Bastaria, todavia, uma opção para desacorrentar aquele coração sem ar: escolher o UNO, o verdadeiro, o literário. Mas fazendo isso onde arranjaria inspiração? É tão consolador sentir o gozo trazido pela angústia.
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