terça-feira, 2 de dezembro de 2014

02

Já se vai o tempo. Joguei-o contra mim ao sentenciar o dia para pôr em ordem os desencontros do pensar. Quantos mistérios cabem na complexa mente humana? Quantos não cabem? Não te busquei por vontade, mas prendeste-me em tua poesia, em ti me fiz lagoa, encontrei o mar. O sentido dessa desaventura, desse nao-querer me corrói os olhos, fecho-os apertado para não pensar em me desfazer de ti. Sou brisa a procura de pássaro, caminho íngreme que não consigo percorrer. No desejar-te, temo perder tranquilidades outras, certezas outras, minutos de bem-querer. Prendeste-me e no entanto quedastes inerte face a minha cólera, romântica cólera que mascaro atrás da consciência timidamente clara de que não posso buscar-te, não posso poetizar-te em mim porque há contra-senso, há outras belezas, moinhos de vento que perto de ti e longe de mim, me mastigam o peito fatalmente  irracional. 

01

Amarela faz-se a luz dessa cidade que chove hoje em regime de exceção, quase sépia, suas cores me retomam pesares recorrentes aos fins de tarde depois do expediente. Dúvida outra não se faz tão latente em minha mente senão a de encontrar-te, os rios que me ofereces sem saber, são meus bem antes de te encontrar, por isso minha razão se turva, estás me oferecendo a mim mesmo. De uma análise inicial, enxergo a imoralidade de te trazer ao lado, há beleza contigo e em ti, não poderia me esquecer dela. Mas, voltando aos meus quereres, te vejo possível numa fantasia, pelo avesso, na boêmia vontade de viver teu corpo e poesia. Pretendo me desvencilhar de ti, buscar-me em outras belezas, cantorias e rodopios.
Desesperador esse escrito, não falo e só escrevo minhas angústias, mas bordastes figura original em mim, não a compreendo e já a sinto parte integrante. Não prevejo o que pode conhecer para que minha poesia se desentrelace da sua. Vejamos nós. Sejamos nós - onde pudermos.