domingo, 28 de agosto de 2011

Intersecção de Marias














Acordou. Fez café. Conferiu a carroça.
Acordou. Pediu café. Conferiu o carro.
Acordou. Dormiu. Dormiu.

Carregou água. Cansou. Lavou roupas.
Visitou investidores. Cansou. Leu protocolos.
Atuou. Cansou. Ouviu música.

Ordenhou animais. Colheu legumes. Sorriu.
Despachou processos. Assinou contratos. Sorriu.
Levantou. Leu um romance. Sorriu.

Visitou parentes. Falou dos filhos. Lembrou-se do jantar.
Visitou parentes. Falou do trabalho. Lembrou-se do e-mail.
Visitou parentes. Falou da peça. Lembrou-se do ensaio.

Beijou os filhos. Boa noite. Arrumou a cama.
Beijou o marido. Boa noite. Deitou na cama.
Beijou a cachorro. Boa noite. Não tinha cama.

Chorou pela vida que tem. Rezou. Dormiu.
Chorou pelo marido que tem. Virou. Dormiu.
Chorou por não ter ninguém. Levantou. Não dormiu.

Juan


Noite.  Luzes de automóveis como marca textos em um verso de avenida.  Cidade veloz como se fugindo das trevas. Na contramão pessoas chegam às esquinas pútridas da cidade que agora inicia suas operações. É possível sentir o cheiro e a densidade da fumaça vinda dos cigarros punhados pelos cidadãos dessa comunidade noturna.  Numa outra esquina um assaltante faz mais uma vítima enquanto a maioria das pessoas ainda dorme. Dali de cima Juan conseguia acompanhar toda dinâmica das pessoas. Ele sempre se punha naquela situação. Na varanda de seu apartamento localizado na periferia de mais uma recém-criada metrópole, o homem de trinta e cinco anos contemplava aquelas cenas como que para fugir de sua própria película. Matinha uma barba rala, era de estatura mediana, trabalhava em uma rede de fast-food como caixa e nas horas livres debruçava-se em uma poltrona gasta localizada estrategicamente em sua varanda, naquele lugar lia as manchetes de jornais sensacionalistas, não que ele gostasse, mas é que esse tipo de mídia tinha se difundido rapidamente em todo o país e como todo jornal não sensacionalista era por consequência ideológico, Juan preferia o exemplar mais popular a ter que pesquisar termos técnicos e situações históricas pouco assimiladas na época de colégio. Junto da edição mais nova de seu informativo Juan ainda tinha uma xícara com chá de erva-doce, um papel de ceda e uma porção de maconha, que comprara na noite anterior durante a volta pra casa. Não, Juan não era viciado, ele apenas percebeu que tudo que viveu até aquele momento era análogo a tudo que a maioria das pessoas tinha vivido naquele estágio de vida. Seus vizinhos tinham trabalhos medíocres como o seu, tinham uma TV em casa, iam à missa aos domingos, liam livros de autoajuda que estavam nas listas de mais vendidos, mantinham casamentos falidos, defendiam ferozmente partidos políticos com argumentos plagiados de uma conversa informal ou se recusavam a tratar de política por se dizerem enojados. Juan não era casado, mas sentia a obrigação de arranjar uma mulher depressa, afinal dentre seus irmãos era o único solteiro, o que trazia inúmeras críticas nos encontros familiares, que por sinal ele odiava. Juan se perguntava onde o modelo de “homem” foi formulado, achava que poderia ser obra de um ser supremo, talvez um Deus que tudo coordena e condena. Não, deve ser obra de um deus terreno que tem total autonomia graças à perpetuação do poder que todos permitem que ocorra. Juan achava que teria que quebrar alguma regra para se sentir diferente dos demais, por isso comprou o baseado que está prestes a acender. Tomou a decisão de transgredir a lei desse modo porque não tinha nem coragem nem dinheiro para matar alguém, não tinha coragem nem rudeza para assaltar, não tinha coragem nem popularidade para candidatar-se a um cargo público e posteriormente desviar verbas estatais, desse modo - sem coragem - Juan decidiu fumar maconha; parecia simples, era só arranjar um traficante e comprar a droga, no seu bairro ele já observara muitos maconheiros da sua varanda.
Lá estava Juan, deitado em sua poltrona, tomando seu chá e assistindo ao espetáculo tantas vezes reprisado na mesma tela. Por um momento lembrou-se dos ensinamentos do pai: Não responda aos mais velhos, não coma de boca aberta, não use drogas, estude para ser alguém, mas o que é ser alguém afinal? Será que seu pai quis simplesmente que ele seguisse o modelo seguido por todos os demais? Bem, se foi isso, Juan era “alguém”. Entretanto, ser “alguém” naquele instante não mais era suficiente para Juan, ele precisava de um tanto mais, alguma coisa que o deixasse diferente e o afastasse do tradicionalismo social que lhe rodeava; fumar um baseado poderia até ser algo violador da conduta pré-estabelecida, mas não o tornaria diferente de ninguém, uma vez que a banalização de seu uso só o inseria em mais um grupo de formação tradicional: “os maconheiros”. Era como deixar de ser “alguém” para virar outro alguém que também já era alguém. Aquele cigarro não teria significado nenhum. Naquele mundo onde as pessoas são apenas peças do tabuleiro de xadrez do estado ninguém tinha identidade, era como se uma pessoa não fosse nada além de mais um representante de um grupo, sendo assim qualquer tentativa de discrepância sempre resultaria em uma tachação, enquadrando assim o individuo num novo grupo.
Apesar disso Juan acreditou que seu baseado seria apenas o começo de uma nova visão de mundo, uma partida para a corrida rumo ao ser verdadeiramente ALGUÉM e não mais um indivíduo clone. Assim, suscitou a chama de seu cigarro e sorveu-o de modo lento mas preciso. O tempo pareceu mais extenso e por alguns segundo Juan estava fora do conservadorismo e da igualdade. Juan era UNO e não todo, ele era finalmente diferente, porque conseguiu libertar-se do cotidiano alienador que o cercava.
Passado o efeito da erva Juan estava novamente no mundo que repudiava. Precisava de algo, precisava de uma atitude, precisava ser alguém. Resolveu então difundir suas ideias em um metrô lotado. Bem, essa colocação é quase pleonástica, já que metrô em uma metrópole de terceiro mundo já tem o adjetivo lotado em sua essência. Entrou no trem. Pediu licença para se pronunciar. Viu rostos virando insatisfeitos. Desistiu. Desceu na estação seguinte. Lastimou-se. Sentiu-se incapaz. Comprou outra quantidade de maconha. Fumou no banheiro da estação. Sentiu-se hábil. Voltou à sua “integridade”. Novamente Lastimou-se. Esperou o próximo trem. Desceu da plataforma. Pôs-se sentado na frente da locomotiva de maneira que o campo de visão do condutor não o alcançasse. O trem partiu. Pessoas gritaram. Inércia: “um corpo tende a permanecer em seu estado de origem”. Ambulâncias. Paramédicos. Constatação: morte. Atestado de óbito: “Nome: Desconhecido... Idade... Causa da morte: Atropelamento...”.
Ele só queria ser alguém. Acabou não sendo ninguém. Antes tivesse permanecido em sua varanda sendo alguém durante seus minutos de êxtase.


sábado, 27 de agosto de 2011

Pablo


            Luz, muita luz. Um dia como há muito não se via. Sol totalmente exposto, céu cinza de poluição, muitos helicópteros voando, fábricas lançado sua névoa de desenvolvimento ininterruptamente. Enfim, um dia perfeito. Pessoas andam autônomas pelas ruas, desviam de mendigos nas calçadas e temem negros. Assaltos já estão previstos na Constituição Federal do povo – Não reaja.
            Buzinas, carros, fumaça, muita fumaça. Pessoas passam horas paradas em seus instrumentos de ostentação de riqueza, enquanto isso indivíduos comuns andam e chegam mais rápido. As esquinas alternam entre igrejas e universidades. Bíblias e Diplomas. Deuses eleitos pela fé e Deuses eleitos pelo dinheiro. Nas vielas, policiais torturam um indigente – mais comum do que parece. Passeatas tomam as ruas – “Estudante não é ladrão, aumento no ônibus não!”; “ado, ado, ado, queimem todos os viados!”; “Isso é contra Deus, matem todos os ateus!”.
            Nunca se viu tanta evolução. O país está a pleno vapor industrial e moral. Imagine só, até os gays podem andar na rua, desde que não passem por locais muito movimentados, claro. Sob pena de castigo público instrumentado por objetos em forma de bastão, os mais empregados são tacos de baseball e lâmpadas fluorescentes, verdadeira progressão já que qualquer um pode fazer uso de tais artifícios desde que seja empregado justamente: em gays, negros e mendigos.
            O orgulho é evidente na cara de todos. Afinal, agora qualquer um pode fazer faculdade. Há inúmeras possibilidades de financiamento, daqueles que vão de 60 a 300 meses – só não é doutor quem não quer, afirma a população. O país nunca manteve uma imagem tão boa internacionalmente, tudo graças ao petróleo que é todo exportado a um apreço mínimo, em contrapartida paga-se caro para abastecer nos postos de combustíveis nacionais - mas não era pra ser o contrário? Bem, a população não discute isso, todos sabem que o Governo sabe o que está fazendo.
            Pablo está saindo para faculdade nesse momento, já está atrasado só faltam duas horas para o início das aulas e sua casa é distante, quase 20 km da instituição, praticamente impossível chegar pontualmente. O rapaz de vinte e poucos anos conta as moedas do bolso e constata que o pedinte da esquina não ganhará sua ajuda diária hoje. Pablo caminha até o ponto de ônibus, enxerga uma multidão vindo com faixas, apitos e panfletos, mais uma manifestação contra a quebra dos preceitos divinos; dessa vez reivindicavam a manutenção da família tradicional – a família cristã. Pablo procura entender as razões de se envolver num ato que tem como finalidade apenas ofender e atacar outro grupo social. Bem, melhor não pensar muito, afinal o ônibus já está chegando. Ao entrar no transporte, Pablo não consegue arranjar cadeiras vazias, nada que já não esteja habituado. Durante o trajeto a única coisa a se fazer é pensar na rotina e é isso que ele faz. Em sua agenda mental Pablo observa que terá que sair mais cedo da aula para alcançar, no seu emprego de vendedor numa loja de bebidas, a reunião extraordinária da semana – mas não é extraordinária?
            Pablo chega à faculdade, aluno de administração, cliente do financiamento estudantil de 300 meses, há seis não consegue pagar as mensalidades, sua mãe perdeu o emprego, o marido e está prestes a perder a casa, de tantas perdas acabou ganhando uma depressão – dizem que é o mal do século.  Pablo não acha justo pagar a faculdade enquanto a mãe passa fome, por isso decidiu empregar o seu salário mínimo na recuperação da saúde de sua mãe. Pena que a depressão não achou o esforço de Pablo o suficiente e insiste em habitar a triste alma matriarcal.
            Na faculdade Pablo não tem muitos amigos, fala pouco, escuta muito, não aprende nada. Sai correndo para o trabalho antes do fim das aulas, chega atrasado novamente e assina o aviso prévio, mais um corte de pessoal, deve ser a crise européia, ou será americana? Sai pensando nas cifras que ainda mantém poupadas no banco estatal. Sempre achou estranho ter um número para tudo: RG, CPF, CEP, IR, Matrícula... Por que tratar de pessoas por números? Não era hora para isso. Pablo não poderia dar essa notícia pra sua mãe: como ela reagiria? E a casa? E a faculdade? Melhor não pensar agora.  Pegou o ônibus e percorreu seu trajeto orando para um Deus que poderia ajudá-lo.
            Desceu na Rua 171, pois é, as ruas passaram a ter denominação numérica, é que as pessoas ilustres estavam desaparecendo e a redundância transformava o serviço postal num caos.  Pablo precisava de uma solução para remediar o que não era sua culpa, mas que aumentaria os odiosos números de sua vida. Caminhou durante 1 hora, pensou no que fazer. Pensou no que fazer. Pensou no que fazer. – as pessoas pensam muito ultimamente. Não tinha outra escolha, Pablo assaltaria o primeiro idoso que enfrentasse a imensa fila preferencial, sacasse sua aposentadoria e saísse do banco. Reparou numa senhora baixa de roupas gastas e pele muito enrugada, pensou consigo que aquela infeliz saberia como se virar sem dinheiro, afinal ela já deveria ter passado por isso. Pablo esperou a velha sair, seguiu a senhora até a esquina e anunciou o assalto. Imediatamente a enrugada tirou um spray de pimenta da bolsa e atingiu em cheio os olhos do recém formado bandido – hoje em dia tem-se que se andar precavido. Rapidamente a polícia chegou e depois de trinta minutos de lições físicas – eufemismo pra tortura – levaram Pablo preso.
            Mais uma tentativa de assalto disse o policial à delegada. Mais pancada disse a delegada ao policial. Depois de muita conversa e muita pancada, Pablo perdeu os sentidos. Droga, Pensaram os oficiais.
            Pablo não retornou a vida, estava morto e já recebera um número de processo, ele era o 171 – a vida tem dessas coisas. Mais um caso pros milhões de arquivos da justiça. Agora só restaram os murmúrios de conhecidos:
- ele tinha toda uma vida pela frente.
- Deus quis, deus fez.
- Foi roubar! Bem feito.
- Deveria ter pensado mais.
- Ele odiava números, não merecia ter acabado como mais um conjunto de numerais em um processo.
Ironia da vida.
           
           

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Cristóvão


Pessoas caminham indiferentes nas avenidas. Animais fazem suas necessidades livremente. Carros equipados com auto-falantes anunciam mais uma campanha de vacinação. Vendedores ambulantes emolduram as ruas e se encarregam de criar a trilha sonora dos logradouros públicos. Enquanto isso as pessoas vivem suas vidas de modo autônomo, ninguém se interessa verdadeiramente pelos problemas dos outros. Os avanços tecnológicos afastam cada vez mais os indivíduos, quase não se alimentam relações sociais, tornou-se mais fácil mandar um e-mail ou estender o número de amigos da mais nova rede social da internet. Os amigos virtuais se propagaram de modo tão efêmero que as amizades intersubjetivas estão quase se extinguindo.

Nesse meio, vive Cristóvão, um enfermeiro solteiro, baixo, negro, pobre e indiferente aos olhos dos demais - com tais adjetivos não teria como não ser indiferente. Trabalha num hospital psiquiátrico feminino, não que goste da profissão, na verdade enfermagem era o curso mais barato a se fazer, levando o seu livre-arbítrio a optar somente entre ter profissão e não ter profissão – Garoto de sorte, ainda teve opções!

Cristóvão trabalha de segunda a sábado e trata da medicação das enfermas; nunca teve uma namorada e o maior atrativo de sua vida era poder viver em dois mundos, um dentro do hospital e um fora. Para ele o ambiente da loucura representava a máxima liberdade do mundo exterior, já que ninguém queria saber o que se passava com aquelas loucas, assim, a vida das infelizes representava um mundo diferente, um mundo sem normas legislativas, um lugar onde cada um era juiz e réu de si mesmo.

Cerca de trinta internas habitavam o hospital, Cristóvão adorava observá-las, o rapaz gostava da irreverência e extroversão das loucas, era como poder fazer o que se tinha vontade sem se preocupar com os observadores. A loucura nunca pareceu ruim para Cristóvão, mesmo escutando murmúrios de todos os lados, palavras que renegavam a condição de insanidade, como se fosse um crime. Pobres criminosas, então, pensava o moço, cometem um crime sem ter noção que são delinqüentes sociais. Observando as loucas, Cristóvão atenta para uma moça jovem, clara e com uma boneca. Deve ser nova no internamento, o enfermeiro nunca a tinha visto. O rapaz acompanhou a moça durante toda a tarde, parecia embriagado pela ingenuidade e desvirtues da menina – às vezes os defeitos são a parte mais atrativa. Cristóvão não esqueceu a moça durante toda a noite, no caminho pra casa obrigou o seu cérebro a repetir em câmera lenta todos os movimentos desordenados da jovem louca, aquilo parecia lindo para Cristóvão, era como um balé contemporâneo.

No dia seguinte fez questão de chegar mais cedo e acompanhar a moça desde o café da manhã. Cristóvão não entendia como aquela menina estava imersa em tão medíocre situação, ela era linda demais para isso – Ninguém pode ter tudo. O enfermeiro estava encantado e transbordava ainda mais quando via sair da boca da louca palavras distorcidas e frases sem coesão, era como um exercício de decifração, aquilo deveria ter um sentido, pensando assim passou dias tentando compreender a menina – sem grandes resultados.

Cristóvão estava verdadeiramente apaixonado pela jovem louca, mas sabia que não poderia fazer nada para assumir seu sentimento, já que a ética não permitia tamanha indecência – Maldita ética. Começou então a ajudá-la com mais afinco e paixão. Iniciou tratamentos novos e deu seus remédios em horários britânicamente calculados – Como seria bom que todos se apaixonassem por um paciente. Dia a dia, palavra a palavra, surto a surto, coesão a coesão foi-se passando o tempo. A louca se recuperava, mas a medida que voltava ao estágio normal de sanidade, perdia a irreverência da loucura, os trejeitos da insanidade a liberdade que tinha.

Curada, a moça não mais louca já não era tão atraente para Cristóvão, o enfermeiro somente reintroduziu mais uma pessoa egocêntrica e indiferente ao mundo exterior. Aquela criatura sã não era nada mais que uma criatura, para o rapaz. Naquela noite Cristóvão foi pra casa e não dormiu, não dormiu no dia seguinte, não dormiu durante uma semana. Como era possível? Era como se a menina fosse uma pessoa quando dentro do mundo do hospital e outra quando fora. Ela deveria ter permanecido interna, como pude fazer isso, questionava-se. O enfermeiro passou a falar menos, a falar pouco, a não falar. A comer menos, comer pouco, não comer. A andar menos, andar pouco, não andar. A viver menos, viver pouco, não viver. Às vezes o arrependimento mata – sabedoria popular.