sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Cristóvão


Pessoas caminham indiferentes nas avenidas. Animais fazem suas necessidades livremente. Carros equipados com auto-falantes anunciam mais uma campanha de vacinação. Vendedores ambulantes emolduram as ruas e se encarregam de criar a trilha sonora dos logradouros públicos. Enquanto isso as pessoas vivem suas vidas de modo autônomo, ninguém se interessa verdadeiramente pelos problemas dos outros. Os avanços tecnológicos afastam cada vez mais os indivíduos, quase não se alimentam relações sociais, tornou-se mais fácil mandar um e-mail ou estender o número de amigos da mais nova rede social da internet. Os amigos virtuais se propagaram de modo tão efêmero que as amizades intersubjetivas estão quase se extinguindo.

Nesse meio, vive Cristóvão, um enfermeiro solteiro, baixo, negro, pobre e indiferente aos olhos dos demais - com tais adjetivos não teria como não ser indiferente. Trabalha num hospital psiquiátrico feminino, não que goste da profissão, na verdade enfermagem era o curso mais barato a se fazer, levando o seu livre-arbítrio a optar somente entre ter profissão e não ter profissão – Garoto de sorte, ainda teve opções!

Cristóvão trabalha de segunda a sábado e trata da medicação das enfermas; nunca teve uma namorada e o maior atrativo de sua vida era poder viver em dois mundos, um dentro do hospital e um fora. Para ele o ambiente da loucura representava a máxima liberdade do mundo exterior, já que ninguém queria saber o que se passava com aquelas loucas, assim, a vida das infelizes representava um mundo diferente, um mundo sem normas legislativas, um lugar onde cada um era juiz e réu de si mesmo.

Cerca de trinta internas habitavam o hospital, Cristóvão adorava observá-las, o rapaz gostava da irreverência e extroversão das loucas, era como poder fazer o que se tinha vontade sem se preocupar com os observadores. A loucura nunca pareceu ruim para Cristóvão, mesmo escutando murmúrios de todos os lados, palavras que renegavam a condição de insanidade, como se fosse um crime. Pobres criminosas, então, pensava o moço, cometem um crime sem ter noção que são delinqüentes sociais. Observando as loucas, Cristóvão atenta para uma moça jovem, clara e com uma boneca. Deve ser nova no internamento, o enfermeiro nunca a tinha visto. O rapaz acompanhou a moça durante toda a tarde, parecia embriagado pela ingenuidade e desvirtues da menina – às vezes os defeitos são a parte mais atrativa. Cristóvão não esqueceu a moça durante toda a noite, no caminho pra casa obrigou o seu cérebro a repetir em câmera lenta todos os movimentos desordenados da jovem louca, aquilo parecia lindo para Cristóvão, era como um balé contemporâneo.

No dia seguinte fez questão de chegar mais cedo e acompanhar a moça desde o café da manhã. Cristóvão não entendia como aquela menina estava imersa em tão medíocre situação, ela era linda demais para isso – Ninguém pode ter tudo. O enfermeiro estava encantado e transbordava ainda mais quando via sair da boca da louca palavras distorcidas e frases sem coesão, era como um exercício de decifração, aquilo deveria ter um sentido, pensando assim passou dias tentando compreender a menina – sem grandes resultados.

Cristóvão estava verdadeiramente apaixonado pela jovem louca, mas sabia que não poderia fazer nada para assumir seu sentimento, já que a ética não permitia tamanha indecência – Maldita ética. Começou então a ajudá-la com mais afinco e paixão. Iniciou tratamentos novos e deu seus remédios em horários britânicamente calculados – Como seria bom que todos se apaixonassem por um paciente. Dia a dia, palavra a palavra, surto a surto, coesão a coesão foi-se passando o tempo. A louca se recuperava, mas a medida que voltava ao estágio normal de sanidade, perdia a irreverência da loucura, os trejeitos da insanidade a liberdade que tinha.

Curada, a moça não mais louca já não era tão atraente para Cristóvão, o enfermeiro somente reintroduziu mais uma pessoa egocêntrica e indiferente ao mundo exterior. Aquela criatura sã não era nada mais que uma criatura, para o rapaz. Naquela noite Cristóvão foi pra casa e não dormiu, não dormiu no dia seguinte, não dormiu durante uma semana. Como era possível? Era como se a menina fosse uma pessoa quando dentro do mundo do hospital e outra quando fora. Ela deveria ter permanecido interna, como pude fazer isso, questionava-se. O enfermeiro passou a falar menos, a falar pouco, a não falar. A comer menos, comer pouco, não comer. A andar menos, andar pouco, não andar. A viver menos, viver pouco, não viver. Às vezes o arrependimento mata – sabedoria popular.

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