domingo, 28 de agosto de 2011

Juan


Noite.  Luzes de automóveis como marca textos em um verso de avenida.  Cidade veloz como se fugindo das trevas. Na contramão pessoas chegam às esquinas pútridas da cidade que agora inicia suas operações. É possível sentir o cheiro e a densidade da fumaça vinda dos cigarros punhados pelos cidadãos dessa comunidade noturna.  Numa outra esquina um assaltante faz mais uma vítima enquanto a maioria das pessoas ainda dorme. Dali de cima Juan conseguia acompanhar toda dinâmica das pessoas. Ele sempre se punha naquela situação. Na varanda de seu apartamento localizado na periferia de mais uma recém-criada metrópole, o homem de trinta e cinco anos contemplava aquelas cenas como que para fugir de sua própria película. Matinha uma barba rala, era de estatura mediana, trabalhava em uma rede de fast-food como caixa e nas horas livres debruçava-se em uma poltrona gasta localizada estrategicamente em sua varanda, naquele lugar lia as manchetes de jornais sensacionalistas, não que ele gostasse, mas é que esse tipo de mídia tinha se difundido rapidamente em todo o país e como todo jornal não sensacionalista era por consequência ideológico, Juan preferia o exemplar mais popular a ter que pesquisar termos técnicos e situações históricas pouco assimiladas na época de colégio. Junto da edição mais nova de seu informativo Juan ainda tinha uma xícara com chá de erva-doce, um papel de ceda e uma porção de maconha, que comprara na noite anterior durante a volta pra casa. Não, Juan não era viciado, ele apenas percebeu que tudo que viveu até aquele momento era análogo a tudo que a maioria das pessoas tinha vivido naquele estágio de vida. Seus vizinhos tinham trabalhos medíocres como o seu, tinham uma TV em casa, iam à missa aos domingos, liam livros de autoajuda que estavam nas listas de mais vendidos, mantinham casamentos falidos, defendiam ferozmente partidos políticos com argumentos plagiados de uma conversa informal ou se recusavam a tratar de política por se dizerem enojados. Juan não era casado, mas sentia a obrigação de arranjar uma mulher depressa, afinal dentre seus irmãos era o único solteiro, o que trazia inúmeras críticas nos encontros familiares, que por sinal ele odiava. Juan se perguntava onde o modelo de “homem” foi formulado, achava que poderia ser obra de um ser supremo, talvez um Deus que tudo coordena e condena. Não, deve ser obra de um deus terreno que tem total autonomia graças à perpetuação do poder que todos permitem que ocorra. Juan achava que teria que quebrar alguma regra para se sentir diferente dos demais, por isso comprou o baseado que está prestes a acender. Tomou a decisão de transgredir a lei desse modo porque não tinha nem coragem nem dinheiro para matar alguém, não tinha coragem nem rudeza para assaltar, não tinha coragem nem popularidade para candidatar-se a um cargo público e posteriormente desviar verbas estatais, desse modo - sem coragem - Juan decidiu fumar maconha; parecia simples, era só arranjar um traficante e comprar a droga, no seu bairro ele já observara muitos maconheiros da sua varanda.
Lá estava Juan, deitado em sua poltrona, tomando seu chá e assistindo ao espetáculo tantas vezes reprisado na mesma tela. Por um momento lembrou-se dos ensinamentos do pai: Não responda aos mais velhos, não coma de boca aberta, não use drogas, estude para ser alguém, mas o que é ser alguém afinal? Será que seu pai quis simplesmente que ele seguisse o modelo seguido por todos os demais? Bem, se foi isso, Juan era “alguém”. Entretanto, ser “alguém” naquele instante não mais era suficiente para Juan, ele precisava de um tanto mais, alguma coisa que o deixasse diferente e o afastasse do tradicionalismo social que lhe rodeava; fumar um baseado poderia até ser algo violador da conduta pré-estabelecida, mas não o tornaria diferente de ninguém, uma vez que a banalização de seu uso só o inseria em mais um grupo de formação tradicional: “os maconheiros”. Era como deixar de ser “alguém” para virar outro alguém que também já era alguém. Aquele cigarro não teria significado nenhum. Naquele mundo onde as pessoas são apenas peças do tabuleiro de xadrez do estado ninguém tinha identidade, era como se uma pessoa não fosse nada além de mais um representante de um grupo, sendo assim qualquer tentativa de discrepância sempre resultaria em uma tachação, enquadrando assim o individuo num novo grupo.
Apesar disso Juan acreditou que seu baseado seria apenas o começo de uma nova visão de mundo, uma partida para a corrida rumo ao ser verdadeiramente ALGUÉM e não mais um indivíduo clone. Assim, suscitou a chama de seu cigarro e sorveu-o de modo lento mas preciso. O tempo pareceu mais extenso e por alguns segundo Juan estava fora do conservadorismo e da igualdade. Juan era UNO e não todo, ele era finalmente diferente, porque conseguiu libertar-se do cotidiano alienador que o cercava.
Passado o efeito da erva Juan estava novamente no mundo que repudiava. Precisava de algo, precisava de uma atitude, precisava ser alguém. Resolveu então difundir suas ideias em um metrô lotado. Bem, essa colocação é quase pleonástica, já que metrô em uma metrópole de terceiro mundo já tem o adjetivo lotado em sua essência. Entrou no trem. Pediu licença para se pronunciar. Viu rostos virando insatisfeitos. Desistiu. Desceu na estação seguinte. Lastimou-se. Sentiu-se incapaz. Comprou outra quantidade de maconha. Fumou no banheiro da estação. Sentiu-se hábil. Voltou à sua “integridade”. Novamente Lastimou-se. Esperou o próximo trem. Desceu da plataforma. Pôs-se sentado na frente da locomotiva de maneira que o campo de visão do condutor não o alcançasse. O trem partiu. Pessoas gritaram. Inércia: “um corpo tende a permanecer em seu estado de origem”. Ambulâncias. Paramédicos. Constatação: morte. Atestado de óbito: “Nome: Desconhecido... Idade... Causa da morte: Atropelamento...”.
Ele só queria ser alguém. Acabou não sendo ninguém. Antes tivesse permanecido em sua varanda sendo alguém durante seus minutos de êxtase.


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