sábado, 27 de agosto de 2011

Pablo


            Luz, muita luz. Um dia como há muito não se via. Sol totalmente exposto, céu cinza de poluição, muitos helicópteros voando, fábricas lançado sua névoa de desenvolvimento ininterruptamente. Enfim, um dia perfeito. Pessoas andam autônomas pelas ruas, desviam de mendigos nas calçadas e temem negros. Assaltos já estão previstos na Constituição Federal do povo – Não reaja.
            Buzinas, carros, fumaça, muita fumaça. Pessoas passam horas paradas em seus instrumentos de ostentação de riqueza, enquanto isso indivíduos comuns andam e chegam mais rápido. As esquinas alternam entre igrejas e universidades. Bíblias e Diplomas. Deuses eleitos pela fé e Deuses eleitos pelo dinheiro. Nas vielas, policiais torturam um indigente – mais comum do que parece. Passeatas tomam as ruas – “Estudante não é ladrão, aumento no ônibus não!”; “ado, ado, ado, queimem todos os viados!”; “Isso é contra Deus, matem todos os ateus!”.
            Nunca se viu tanta evolução. O país está a pleno vapor industrial e moral. Imagine só, até os gays podem andar na rua, desde que não passem por locais muito movimentados, claro. Sob pena de castigo público instrumentado por objetos em forma de bastão, os mais empregados são tacos de baseball e lâmpadas fluorescentes, verdadeira progressão já que qualquer um pode fazer uso de tais artifícios desde que seja empregado justamente: em gays, negros e mendigos.
            O orgulho é evidente na cara de todos. Afinal, agora qualquer um pode fazer faculdade. Há inúmeras possibilidades de financiamento, daqueles que vão de 60 a 300 meses – só não é doutor quem não quer, afirma a população. O país nunca manteve uma imagem tão boa internacionalmente, tudo graças ao petróleo que é todo exportado a um apreço mínimo, em contrapartida paga-se caro para abastecer nos postos de combustíveis nacionais - mas não era pra ser o contrário? Bem, a população não discute isso, todos sabem que o Governo sabe o que está fazendo.
            Pablo está saindo para faculdade nesse momento, já está atrasado só faltam duas horas para o início das aulas e sua casa é distante, quase 20 km da instituição, praticamente impossível chegar pontualmente. O rapaz de vinte e poucos anos conta as moedas do bolso e constata que o pedinte da esquina não ganhará sua ajuda diária hoje. Pablo caminha até o ponto de ônibus, enxerga uma multidão vindo com faixas, apitos e panfletos, mais uma manifestação contra a quebra dos preceitos divinos; dessa vez reivindicavam a manutenção da família tradicional – a família cristã. Pablo procura entender as razões de se envolver num ato que tem como finalidade apenas ofender e atacar outro grupo social. Bem, melhor não pensar muito, afinal o ônibus já está chegando. Ao entrar no transporte, Pablo não consegue arranjar cadeiras vazias, nada que já não esteja habituado. Durante o trajeto a única coisa a se fazer é pensar na rotina e é isso que ele faz. Em sua agenda mental Pablo observa que terá que sair mais cedo da aula para alcançar, no seu emprego de vendedor numa loja de bebidas, a reunião extraordinária da semana – mas não é extraordinária?
            Pablo chega à faculdade, aluno de administração, cliente do financiamento estudantil de 300 meses, há seis não consegue pagar as mensalidades, sua mãe perdeu o emprego, o marido e está prestes a perder a casa, de tantas perdas acabou ganhando uma depressão – dizem que é o mal do século.  Pablo não acha justo pagar a faculdade enquanto a mãe passa fome, por isso decidiu empregar o seu salário mínimo na recuperação da saúde de sua mãe. Pena que a depressão não achou o esforço de Pablo o suficiente e insiste em habitar a triste alma matriarcal.
            Na faculdade Pablo não tem muitos amigos, fala pouco, escuta muito, não aprende nada. Sai correndo para o trabalho antes do fim das aulas, chega atrasado novamente e assina o aviso prévio, mais um corte de pessoal, deve ser a crise européia, ou será americana? Sai pensando nas cifras que ainda mantém poupadas no banco estatal. Sempre achou estranho ter um número para tudo: RG, CPF, CEP, IR, Matrícula... Por que tratar de pessoas por números? Não era hora para isso. Pablo não poderia dar essa notícia pra sua mãe: como ela reagiria? E a casa? E a faculdade? Melhor não pensar agora.  Pegou o ônibus e percorreu seu trajeto orando para um Deus que poderia ajudá-lo.
            Desceu na Rua 171, pois é, as ruas passaram a ter denominação numérica, é que as pessoas ilustres estavam desaparecendo e a redundância transformava o serviço postal num caos.  Pablo precisava de uma solução para remediar o que não era sua culpa, mas que aumentaria os odiosos números de sua vida. Caminhou durante 1 hora, pensou no que fazer. Pensou no que fazer. Pensou no que fazer. – as pessoas pensam muito ultimamente. Não tinha outra escolha, Pablo assaltaria o primeiro idoso que enfrentasse a imensa fila preferencial, sacasse sua aposentadoria e saísse do banco. Reparou numa senhora baixa de roupas gastas e pele muito enrugada, pensou consigo que aquela infeliz saberia como se virar sem dinheiro, afinal ela já deveria ter passado por isso. Pablo esperou a velha sair, seguiu a senhora até a esquina e anunciou o assalto. Imediatamente a enrugada tirou um spray de pimenta da bolsa e atingiu em cheio os olhos do recém formado bandido – hoje em dia tem-se que se andar precavido. Rapidamente a polícia chegou e depois de trinta minutos de lições físicas – eufemismo pra tortura – levaram Pablo preso.
            Mais uma tentativa de assalto disse o policial à delegada. Mais pancada disse a delegada ao policial. Depois de muita conversa e muita pancada, Pablo perdeu os sentidos. Droga, Pensaram os oficiais.
            Pablo não retornou a vida, estava morto e já recebera um número de processo, ele era o 171 – a vida tem dessas coisas. Mais um caso pros milhões de arquivos da justiça. Agora só restaram os murmúrios de conhecidos:
- ele tinha toda uma vida pela frente.
- Deus quis, deus fez.
- Foi roubar! Bem feito.
- Deveria ter pensado mais.
- Ele odiava números, não merecia ter acabado como mais um conjunto de numerais em um processo.
Ironia da vida.
           
           

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