sexta-feira, 20 de abril de 2012

Ali: o malabarista, o catador de latas, o taxista, o invisível.

Parecia irrelevante e passageiro, deveria ser a tensão por mais uma prova na faculdade, mas aquela angústia persistiu, e se ampliou dentro daquele táxi. Ali, com os vidros fechados, hermeticamente isolado do mundo externo, ele se deparou com a realidade costurada em sua pupila, mas olvidada diariamente com doses de colírio de satisfação. O menor que fazia malabares na frente do carro nunca entraria na sala do curso de línguas para onde o táxi seguia, o catador de latas da esquina nunca deixaria de recolher os restos de consumo, aquele taxista trabalharia por horas dia a dentro para conseguir o mínimo de  dignidade. E pensar que todos partilham da qualidade humana. Já em seu destino, não conseguiu conter a lágrima gelada. Ali não conseguia mais pintar a tela de um mundo feito de iniciativas e dedicação. Ali ele já não se reconhecia, já não se via, não se entendia. Ali estava para preencher requisitos e se distanciar ainda mais daqueles invisíveis, mesmo que de contra-vontade. Deu-se conta que era incapaz, uma escultura pacientemente moldada. Expôs a semelhantes visíveis sua inquietude, recebeu doses do mesmo colírio de satisfação. Desejou transformação, mas tinha seu interior fragmentado por uma lixa de concretude e verdade. Deitou de olhos fechados, mas escancarados como nunca antes. A angústia parecia libertadora e opressora, uma dupla via de esperança e descrença. Naquele dia a prova da faculdade pareceu só mais um espinho da coroa que cega de sangue as vistas do dono do sofrimento, o malabarista, o catador de latas, o taxista, o invisível.

Nenhum comentário:

Postar um comentário