sexta-feira, 20 de julho de 2012

Com muita canela e creme

Um respingo de chuva ainda escorria nas costas de Mathias, uma gotinha sem grande importância que se confundia com a sua transpiração, mas que mais densa e delongada permitiu-lhe um momento de saída de sua concentração de chegar a tempo da reunião de veteranos que se formava a alguns minutos dali. Mathias era jovem e recém aprovado no time de xadrez mais conceituado de seu estado e esse seria seu primeiro contato com os jogadores experientes; estava nervoso, tinha a barriga embrulhada e uma leve ânsia de vômito. Percorreu algumas avenidas para chegar à sede do grupo de xadrez, era tarde de um dia de quinta-feira. Em seu trajeto, dialogava consigo mesmo sobre a mudança que entrar para Liga de xadrez traria para sua vida. Fazia promessas, ensaiava falas e pensava em jogadas de sua autoria - até o instante em que aquele respingo de chuva desceu as suas costas. Com o despertar trazido pela gota involuntária, Mathias decidiu parar em um Café do outro lado da rua e se recompor, afinal, não poderia chegar com aparência de cansado - Dizem que a primeira impressão é a que fica. Sentou, pediu o de sempre: um capuccino com muita canela e creme. Tomou a goles largos sem esquecer que já estava demasiado atrasado para o início de sua nova vida. Reparou numa jovem sentada no canto e não perdendo a oportunidade, como dizia seu lema de vida, levantou-se, foi até ela e lançou uma de suas melhores cantadas, aquela somente usada para casos excepcionais - Tinham sido tantos ultimamente. Com um golpe rápido, a moça virou o rosto e retornou a ler o romance interrompido pela investida de Mathias. Recebendo a negativa de modo desmotivante, mas com um pingo de vaidade, o rapaz voltou ao seu lugar, pagou o capuccino com uma nota e mais algumas moedas para facilitar o troco, hábito que sempre fazia por achar gentil com a atendente. Saiu do café, coçou o tornozelo antes de atravessar a rua, prática involuntária, mas repetida sempre quando se encontrava a beira de uma avenida ambicionando a calçada do outro lado e partiu rumo ao clube de xadrez. Faltavam duas quadras até o lugar e Mathias caminhava com pressa, mas sem pisar no espaço entre os ladrilhos das calçadas, na verdade se deparava às vezes contando seus próprios passos. Ao chegar à porta do Clube, decidiu que a partir dali sua vida seria completamente diferente. Entrou, cumprimentou a todos e aceitou a bebida oferecida pelo garçom. "Sim, com muita canela e creme". Naquele dia não jogou nenhuma partida de xadrez, talvez pelo receio do talento dos veteranos que ali estavam.  Saiu dali mais nervoso que quando entrou, uma chuva fina começava a cair e Mathias teve que acelerar a contagem de seus passos até o momento em que esperou o sinal verde numa faixa de pedestres enquanto coçava o tornozelo. Durante a espera, observou uma liquidação de instrumentos musicais e não perdeu a oportunidade. Saiu da loja. A chuva já se fazia mais forte. Sentiu um respingo lhe descer as costas. Despertou. A partir de agora uma nova vida se iniciará para mim. Já em casa: "- com muita canela e creme".

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