sábado, 11 de fevereiro de 2012

Vínculo

Naquela manhã de domingo o mundo parecia vestir luto. Não havia agito, não havia sol, mas havia Pedro e seu apartamento; aquele lugar que tinha vida própria, onde a poltrona gritava suas marcas e registros de alguns cigarros, onde as fotografias dispostas em quadros irregulares em paredes imundas contavam fábulas de uma vida intermitente. Pedro acordou e sentiu muito por acordar, em seus planos o despertar somente aconteceria três horas mais tarde, entretanto, como se sabe, nem sempre as expectativas são satisfeitas. Pôs-se de pé, foi até a sua estante de discos de vinil, puxou aquele tantas vezes já reproduzido e acrescentou mais uma reprodução para seu histórico. Jogou-se então sobre a poltrona e controlou uma lágrima involuntária. Há dias Pedro vem mantendo uma angústia meio sem explicação, decidiu não questioná-la, tinha receio de encontrar respostas incontestáveis. Não imaginava, porém, que se sentiria desse modo, que sua poltrona reforçasse a angústia, que cada quadro na parede zombasse de suas relações superficiais. Pedro, naquele momento, foi obrigado a questionar os motivos de tão nefasto sentimento, teria que entender o seu real significado. Só conseguiu, porém, fazer uma coisa. Levantou-se. Vasculhou a gaveta de seu criado-mudo.  Recolheu uma tabela de comprimidos. Lançou duas pastilhas na boca, empurrou-as com um tanto d'água. O mundo continua suas atividades e Pedro sai de sua problemática individual. Chegou a conclusão de que sua angústia não merecia importância, há relações complexas demais para se preocupar com minunciosidades pessoais.
No dia seguinte a manhã pareceu vestir luto, mas até quando?

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