Cavou a terra, levou suas mãos sujas ao rosto e percebeu a lama carimbada junto de seu suor. Lançou as sementes e com elas seu último respingo de esperança. Com certeza dessa vez receberia a piedade de Deus, finalmente comeria e daria de comer. Volveu à pequena casa que mantinha junto de sua lavoura. Acompanhou o vinil tantas vezes reproduzido e sentiu falta dos reclames e orações entoadas de modo simultâneo à voz rasgada daquele bolero. Gritou pela mulher; não obteve resposta. Pôs-se a procurá-la meio a plantações secas e mortas que mantinha como que com a esperança de que um sopro de vida respingasse o verde já perdido. Encontrou a mulher prostrada sobre as próprias pernas, inerte. Aproximou-se e não obteve reação. Reparou na antiga manjedoura e inundou os olhos com o triste retrato que visualizava: a criança, que outrora foi recebida como sinal da futura prosperidade daqueles recém-casados, estava lá, petrificada, acinzentada e não mais faminta. A mãe, culpando-se, não manifestava atitude, mas repetia em sua mente tantas vezes questionada: "Deus, meu Deus, porque escolher entre plantar e comer? Entre hoje e amanhã? Entre mim e um pedaço de mim?" E a história se repetiu.
sábado, 19 de novembro de 2011
Repetição
Cavou a terra, levou suas mãos sujas ao rosto e percebeu a lama carimbada junto de seu suor. Lançou as sementes e com elas seu último respingo de esperança. Com certeza dessa vez receberia a piedade de Deus, finalmente comeria e daria de comer. Volveu à pequena casa que mantinha junto de sua lavoura. Acompanhou o vinil tantas vezes reproduzido e sentiu falta dos reclames e orações entoadas de modo simultâneo à voz rasgada daquele bolero. Gritou pela mulher; não obteve resposta. Pôs-se a procurá-la meio a plantações secas e mortas que mantinha como que com a esperança de que um sopro de vida respingasse o verde já perdido. Encontrou a mulher prostrada sobre as próprias pernas, inerte. Aproximou-se e não obteve reação. Reparou na antiga manjedoura e inundou os olhos com o triste retrato que visualizava: a criança, que outrora foi recebida como sinal da futura prosperidade daqueles recém-casados, estava lá, petrificada, acinzentada e não mais faminta. A mãe, culpando-se, não manifestava atitude, mas repetia em sua mente tantas vezes questionada: "Deus, meu Deus, porque escolher entre plantar e comer? Entre hoje e amanhã? Entre mim e um pedaço de mim?" E a história se repetiu.
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